Fotografia de Infravermelhos – IR Photography

Este artigo é um breve tutorial, com informação, sobre a fotografia de infravermelhos em câmeras digitais.

1. Considerações

A radiação infravermelha é apenas uma parte do espectro electromagnético e caracteriza-se como a radiação térmica mais próxima do espectro visível de luz (entre os cerca de 380 nm do violeta e os cerca de 720 nm do vermelho), não sendo por isso visível ao olho humano.

A radiação infravermelha pode ainda ser subdividida em infravermelho termal (com maiores comprimentos de onda) que apenas pode ser captado com recurso a equipamentos específicos; e os infravermelhos de proximidade ou reflectidos (NIR) que, por se aproximarem muito do limite superior do espectro visível, podem ser captados pelas nossas câmaras fotográficas, mas não de uma forma linear.

 

Esta radiação é, como qualquer outra, absorvida e/ou reflectida pelos diversos tipos de superfícies / materiais, sendo altamente reflectidas pela vegetação e quase totalmente absorvida pela água.

Informação mais detalhada sobre este tema pode ser consultada Aqui.

2. A Fotografia e os Infravermelhos

No caso da fotografia em filme, foram desenvolvidos filmes específicos sensíveis à radiação infravermelha (NIR) e que eram usados especificamente para este fim substituindo-se aos tradicionais rolos sensíveis apenas ao espectro de luz visível. No fundo criou-se uma foram de tornar o suporte da fotografia adequado a este tipo de radiação.

Actualmente, na era da fotografia digital, os problemas são um pouco diferentes! Na verdade os sensores (o actual suporte da fotografia) são sensíveis às radiações infravermelhas, todavia este facto colocava alguns problemas aos fabricantes ao influenciar a nitidez das imagens e devido à tendência de alterar as cores naturais (dentro do espectro visível).

Deste modo os fabricantes introduziram os chamados Hot Filters mesmo junto aos sensores de forma a bloquear a radiação infravermelha, impedindo que o sensor a capte e registe. Ao longo do tempo estes filtros têm vindo a ser melhorados pelo que as máquinas mais recentes são muito menos sensíveis aos NIR do que as máquinas mais antigas.

Deste modo, existem duas formas de fazer fotografia de infravermelhos:

- através de uma máquina modificada; ou

- através da utilização de filtros

Neste pequeno texto vamos focar-nos na utilização de filtros, todavia uma pequena nota à utilização de máquinas modificadas.

2.1. Infravermelhos com máquinas modificadas

O processo de modificação da câmara é algo complexo e delicado e deverá ser efectuado apenas por pessoas habilitadas para o efeito fica o link com mais informação Lifepixel

A transformação ou modificação passa essencialmente pela remoção do Hot Filter e pela sua substituição por um filtro que bloqueia na quase totalidade o espectro visível da luz deixando passar os NIR (filtro de infravermelhos ou filtro IR). Existem diversos tipos de filtros que vão gerar resultados diferentes.

A principal vantagem deste processo é que se poderá fotografar em infravermelhos quase como se fotografa manualmente, podendo-se usar o viewfinder pois o filtro IR está mesmo junto ao sensor não influenciando nada mais.

As principais desvantagens são o custo associado a este processo de modificação, a sua complexidade e ainda o facto de ficarmos com um corpo apenas dedicado a fotografia de IR.

 

2.2. Infravermelhos com filtros

A técnica é muito simples: utilizar um filtro IR em frente da lente tal como se faz com os filtros ND, por exemplo. Existem diversos tipos de filtros, ie, de rosca, de lâmina e com diversos factores de corte (mais ou menos tolerantes À radiação visível). Provavelmente o mais popular é o Hoya R72 mas existem muitas outras marcas a produzir filtros IR tais como a Kodak, B+W, TIffen, Heliopan e mesmo a Hitech, entre outras. Cada filtro tem diferentes factores de corte e, por essa razão, podem produzir imagens um pouco diferentes.

Genericamente os filtros IR caracterizam-se por serem muito opacos e com um tom avermelhado, independentemente das marcas ou referências. Uma outra característica é que habitualmente estes filtros deixam sempre passar um pouco de luz nos comprimentos de onda imediatamente inferiores, ie, vermelho.

Nesta técnica, que acaba por ser a mais acessível, existe um problema: a existência dos Hot Filters que visa bloquear a captação dos NIR pelo sensor vai “concorrer” com o filtro exterior que, tendencialmente, apenas deixa passar os NIR. Como resultado são necessárias exposições mais longas para conseguir registar uma imagem.

Em suma esta é mesmo a grande desvantagem desta técnica pois, não raras vezes, são necessárias exposições com 15 ou mais segundos.

Como principais vantagens temos o custo bem menor do filtro por oposição à modificação do corpo e ainda o facto de não haver necessidade de um segundo corpo.

 

3. Luz e Balanço de Brancos (1º Passo – Preparar a máquina)

Contrariamente ao geralmente convencionado na fotografia, a melhor luz para fazer fotografia de infravermelhos é a luz forte do Sol entre as 11h00 e as 15h00. Neste período o nível de radiação infravermelha é mais elevada e por isso os NIR também são mais fortes, facilitando a sua captura. Com pouco Sol ou luz fraca as imagens tendem a necessitar de exposições ainda mais longas com óbvio prejuízos ao nível da nitidez e ruído.

O balanço de brancos neste tipo de fotografia é, também, um ponto fundamental e que vai facilitar a futura edição das imagens. Devido ao facto de alguma luz vermelha ser também registada pelo sensor, as imagens em bruto saídas da câmara têm um tom tendencialmente avermelhado, conforme exemplo a seguir:

Para ultrapassar esta questão deverão definir um Balanço de Branco personalizado (Custom WB) e deverão utilizar este Balanço de Brancos sempre que pretendem fazer fotografia de infravermelhos. O processo definição de um Balanço de Brancos personalizado varia de marca para marca e, mesmo dentro da mesma marca, pode variar de modelo para modelo, pelo que aconselho a consulta do manual da máquina sobre como definir um Balanço de Brancos personalizado com base numa imagem.

Para obterem um Balanço de Brancos adequado, aconselho a tirarem uma fotografia, com o filtro colocado, a uma zona de vegetação homogénea (pex. relva, folhagem de árvores, plantas verdes) num dia de Sol forte e de forma a que a toda a imagem seja ocupada com vegetação.  Utilizando este Balanço de Brancos a imagem saída da câmara é substancialmente diferente e deverá ter uma tonalidade sépia com as zonas de vegetação exposta ao Sol a assumirem um tom cinza / branco, como no exemplo seguinte:

 

4. Em Campo (2º Passo – Equipamento e Exposição)

Uma vez que tratamos de fotografia de infravermelhos com recurso a filtros, como referido, temos necessidade de usar longas exposições para registar as imagens. Assim é fundamental, mesmo nos momentos de luz mais forte, o uso de um bom tripé para garantir o rigor no registo da imagem!

Outra questão a ter em conta é que devido ao diferente comprimento de onda da radiação infravermelha, a forma como esta é relfectida e refractada nos elementos ópticos faz com que o ponto de foco seja um pouco diferente do ponto de foco habitual. Aliás, as lentes mais antigas, têm ainda marcas distintas para a focagem com infravermelhos. De forma a atenuar esta questão dever-se-ão utilizar aberturas médias f:8 ou f:11 para aumentar a profundidade de campo e minorar este problema. Claro está que, neste caso, usar o Foco Automático está fora de questão!

A composição da imagem é outro aspecto que requer habituação. Na verdade, como os filtros são tão opacos é virtualmente impossível compor e focar e compor a imagem através do viewfinder. As máquinas com Live View são mais práticas pois consegue-se compor a imagem através deste. No caso de não haver Live View a única hipótese é mesmo compor toda a imagem e só depois colocar o filtro para efectuar o disparo.

Um outro aspecto muito importante a considerar é o valor de ISO. Por experiência própria, os melhores resultados que tenho obtido são com o valor de ISO a 200, algumas com ISO 100. De qualquer das formas desaconselho usar valores mais elevados que ISO 200.

Por fim, como as imagens vão ser sujeitas a uma edição agressiva, é altamente recomendado que fotografem em RAW!

 

5. Edição (último passo)

Este ponto é, como em qualquer outra vertente da fotografia, completamente livre e cada um deverá editar as imagens a seu gosto pessoal e de acordo com os objectivos pretendidos. Existem, contudo, alguns passos básicos que ajudarão a mais rapidamente poderem ter alguns resultados.

Reparem que uma fotografia de infravermelho” pura” será completamente desprovida de cor e por isso será um Preto e Branco. Todavia, os filtros deixam passar algum vermelho que nos vai permitir “brincar” um pouco com a imagem.

Eu defini um workflow meu que me tem dado resultados satisfatórios, claro está que cada um pode fazer as coisas à sua maneira, contudo deixo uma breve descrição do meu workflow para servir de base.

5.1 Inversão de Canais

O primeiro passo que habitualmente faço e que consiste em inverter os canais Azul e Vermelho, como? No Photoshop, utilizando o  Chanel Mixer selecciono o canal Vermelho e ponho o Vermelho a 0% e o Azul a 100% e no canal Azul coloco o Azul a 0% e o Vermelho a 100%. Resultado:

5.2. Níveis e Contraste

Como as imagens têm tendência ficar um pouco subexpostas e com pouco contraste é fundamental acertar os níveis para acertar a exposição e o contraste. De novo, não existem regras e cada um poderá trabalhar da forma que mais lhe agradar. No caso específico depois dos acertos a imagem fica assim:

5.3.Acertos Finais

Poderão, por fim, mexer em diversas ferramentas para obter diferentes resultados. Jogar com a saturação global ou localizada em cada um dos canais; brincar com o tom global ou em cada um dos canais; mexer nas cores uma a uma  com o layer de Cor Selectiva… enfim como disse o Céu é o Limite. Neste caso apresento-vos um resultado alternativo, obtido com a alteração da saturação do canal Vermelho.

Apenas a título de curiosidade, deixo-vos aquilo que seria a imagem em fotografia “convencional” para que possam analisar os diversos aspectos em que diferem uma da outra.

6. Conclusão e referências

A fotografia de infravermelhos é mais complicada de prever do que a fotografia convencional e por isso os resultados podem ser frustrantes ou motivadores, dependendo do objectivo de cada um. É necessário ter em conta que no trinómio corpo – lente – filtro, cada um dos elementos terá um comportamento próprio pelo que combinações diferentes de cada  um destes elementos poderá gerar resultados diferentes. Em suma, é preciso experimentar para verificar!

Deixo também o link para uma acção de Photoshop que automatiza um pouco a edição das imagens, desenvolvida pela  Kromagery (download livre).

Deixo por fim o convite a visitarem a minha galeria de imagens feitas em infravermelho, disponível Aqui

Referências:

- Wikipédia – radiação IR http://pt.wikipedia.org/wiki/Radia%C3%A7%C3%A3o_infravermelha

- Wikipédia – Infrared Photography http://en.wikipedia.org/wiki/Infrared_photography

- Lifepixel – http://www.lifepixel.com/

- Kromagey – http://khromagery.com.au/index.html

- Kenrockwell – http://www.kenrockwell.com/tech/ir.htm

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>